BUSQUE O ALTO!
ANJO BARRO
ANTÔNIO JO BARBOSA RODRIGUES
Eu tirei esta foto no estacionamento do Barra Shopping. Não me perguntem como esta árvore cresceu torta assim. Na época, achei curiosa e resolvi registrar. Agora, coloquei-a como "símbolo" neste blog pelo que ela representa para mim.
Provavelmente, esta árvore passou por dificuldades para crescer neste "caminho torto", mas ela sobreviveu e continua a buscar sempre o alto. Vejo que somos assim também: Nem sempre conseguimos andar pelo caminho reto rumo ao alto, pois somos seres humanos, cheios de incoerências e limites, mas Deus vê a nossa luta em chegar ao alto. Isto é a santidade: não desistir de chegar ao céu. Neste caminho, às vezes caímos, trilhamos caminhos "tortos", mas se nos levantamos e não desistimos de alinhar de novo, estamos rumo ao alto.
Este site tem como objetivo crescermos juntos e, sem suas opiniões e comentários, isto não será possível! Portanto, leia os tópicos, participe comentando!

Nosso trato neste "blog de crescimento" é o seguinte: Me reservo apenas no direito de apagar os comentários que eu considerar ofensivos, contrários à lei e/ou que usarem expressões ou palavras de baixo calão. Trato feito, vamos em frente... ou melhor, para o alto!!!
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A Palavra ou a Voz?

Ao ver as leituras da liturgia deste último dia do ano de 2010, participei de uma partilha que acontece por e-mail e, como se trata justamente de um tema sobre o qual eu já estava pensando em escrever, transcrevo meu comentário aqui. Espero que seja útil!
As leituras do dia são 1Jo 2,18-21 / Sal 96,1-2.11-13 / Jo 1,1-18.

A Palavra (o Verbo) se fez carne e habitou entre nós! (Jo1,14)

Mais à frente, neste Livro do Evangelho segundo S. João, João Batista se reconhece como a voz que clama no deserto.
Em Jo 1,8, o Evangelista afirma que João Batista "não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz".

Eis uma sutil, porém fundamental diferença, entre ser o Verbo (a Palavra) de Deus e ser a voz:

A Palavra é o conteúdo, a mensagem em si, o que se deseja transmitir. Num contexto mais amplo, é a origem e causa de toda ação (inclusive na criação narrada em Gn 1).

Interessante que aqui, não necessariamente estamos falando de palavra no sentido de um conjunto de fonemas ou de letras. Isso já seria um código (prova disso é que dependeria do idioma) que tenta traduzir para cada um de nós o significado do conteúdo que se desejou transmitir (este independeria do idioma).

É por isso (por exemplo) que o correto é terminar a leitura do Evangelho na Missa com "Palavra da Salvação" e não "Palavras da Salvação" (como infelizmente alguns teimam em fazer). A Palavra (o conteúdo a ser transmitido) é o próprio Jesus, a Salvação que veio nos trazer e, por definição, é somente uma. Mesmo sendo expressa por várias palavras (fonemas, letras...) em diversos idiomas diferentes, o sentido final (o que se deseja afirmar) é uma só Palavra, um só Verbo - Aquele que se encarnou e habitou entre nós - Jesus.

Mais um ponto interessante para verificar isto é que em Gênesis 1, Deus cria todas as coisas através da Palavra, descrita no livro com vários "faça-se" e um "façamos". Ora, antes do primeiro faça-se, existia somente Deus. Se Deus criou todas as coisas, o ar também foi criado por Ele. Antes de criar o ar, como se poderia pronunciar uma palavra, já que a propagação deste som precisaria de ar? É evidente que a Palavra neste contexto também é o conteúdo do que Deus desejava fazer e fazia - o conteúdo da ação criadora do Pai. Mais tarde (para nós, mas para Deus tudo é presente), também o próprio conteúdo da Redenção - Jesus.

Portanto, a voz é o canal, o veículo que pode transmitir este conteúdo (que é a Palavra) através de palavras compreensíveis por um determinado idioma. Era o papel de João ser a voz e não a Palavra, ser testemunha da Luz e não a Luz. Isso porque a Palavra é uma só, a Luz que ilumina os homens é uma só - Jesus.

Quando alguém tenta se colocar no lugar da Palavra, no lugar da Luz, e começa a pregar ou falar de suas próprias palavras, acontece o que narra a primeira leitura (I Jo 2,18-21). E quão grave é o versículo 19 de I Jo 2: "Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos, pois se fossem realmente dos nossos, teriam permanecido conosco."

Muitos dos Anticristos saíram do meio dos cristãos, desde os primeiros anos do cristianismo! Esses queriam substituir a Palavra da Salvação pelas suas próprias palavras - Jo1,11: "Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram." Não querem ser apenas a voz que clama, tentam ser a própria palavra... E quantos desses Anticristos estão hoje no mundo?

Senhor, que hoje o nosso coração queira ser voz que clama tua Palavra e não a nossa palavra. Que queiramos seguir Jesus, o Verbo encarnado, e não as vontades do mundo com suas palavras tentadoras, envolventes, enganadoras...

Vem e ilumina-nos com Teu Espírito Santo. Faz-nos refletir Tua Luz que ilumina o mundo. Ajuda-nos a ser o que a tua Palavra criadora chamou-nos a ser no momento de nossa concepção.

Deus seja louvado pelo ano que passou e por mais este ano que se inicia. Sejamos, pois, a voz que clama também durante este ano nesse deserto. Amém.

Abraços a todos! Feliz e abençoado ano novo!
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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Cheia de Graça x Cheia de Si

Nas palavras de saudação do anjo à Maria, já é possível perceber uma alusão à Imaculada Concepção de Maria: Ela é a Cheia de Graça! Cheia, repleta, completamente preenchida pela Graça de Deus!

Aliás, dentro do mesmo assunto, quando falamos de pecado original não significa algo que o recém-nascido tenha cometido. É um conceito que nos liga aos nossos primeiros pais, ao primeiro pecado que um ser humano cometeu. É, em suma, a ausência da graça divina em nós. Essa graça estava presente em Adão e Eva, mas a humanidade a perdeu a partir desta primeira falta. Ora, se pelo Batismo recebemos o Espírito Santo em nós, é fácil intuir que o pecado original é apagado pelo Batismo.

Voltando a falar de Maria, ela é chamada de Imaculada Conceição porque ela foi concebida e nasceu sem o pecado original, ou seja, cheia da graça de Deus. Foi um privilégio, um dom único que Deus lhe concedeu: "em vistas dos méritos de Jesus Cristo, o Redentor do gênero humano, preservada isenta de toda a mancha do pecado original." (Bula Ineffabilis, DS 1641). Podemos dizer que ela foi a primeira pessoa a experimentar a salvação de Jesus, em previsão da própria salvação que Jesus iria realizar.

Ser cheia da graça de Deus é desejar fazer de sua vida uma inteira e completa ação de Deus, é seguir a vontade de Deus em tudo. Isto requer a humildade de unir a própria vontade aos desígnios de Deus. Não se trata de se anular - pelo contrário - trata-se de finalmente ser o que Deus sonhou quando nos fez e, consequentemente, é o caminho para a felicidade e realização enquanto ser humano.

Curiosamente, pensei num termo que seria o contrário para "cheia de graça" e que é bastante utilizado: "cheia de si"!
Uma pessoa cheia de si é aquela justamente que coloca suas vontades acima de tudo e de todos e, certamente, a humildade não é uma das qualidades de uma pessoa assim.

Poderíamos dizer que esta pessoa está preenchida somente de si própria, ou seja, tudo em suas ações está direcionado para si mesmo. Em outras palavras, está fechada aos verdadeiros relacionamentos que pressupõem trocas de experiência e falta o reconhecimento do outro enquanto sujeito, com desejos e anseios também. O centro de sua atenção está nela mesma.

Por isso, achei que "cheia de si" seria um bom "antônimo" para "cheia de graça", pois na primeira expressão, não há espaço para a graça de Deus que é abertura ao outro, traduzida pelo amor. A segunda é, justamente, o esvaziamento de si próprio para que a graça de Deus realize justamente aquilo para o qual fomos feitos: amar.

E o autor da salvação realizou exatamente um "esvaziamento" de si mesmo, pois sendo Deus, não se apegou às prerrogativas divinas, mas se encarnou como humano para realizar no ser humano a salvação, indo até o extremo da morte de cruz (Flp 2,6-8).

Busquemos, portanto, sermos a cada dia menos "cheios de nós" e busquemos a graça de Deus que veio habitar em nós desde nosso Batismo. Que Maria, a cheia de graça, venha em nosso auxílio e continue a interceder por nós.
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domingo, 7 de novembro de 2010

Omniciência Divina x Pre-Determinação ou Destino

Está difícil arrumar tempo pra escrever aqui no blog, mas já que consegui, vamos lá...

Já vi em um monte de lugares confusões entre estes dois conceitos - Omniciência (ou Oniciência) e Destino Pré-Determinado - o que muitas vezes acaba levando a conclusões precipitadas. Vou falar de algumas:
1 - Ora, se existe um Deus e Ele é Omniciente (sabe de tudo que já aconteceu, que acontece e que vai acontecer), então tudo já está determinado e, sendo assim, na realidade eu não faço escolhas - eu não tenho liberdade! Como posso ser responsabilizado por meus atos se tudo está determinado por Deus?
2 - Se tudo está determinado por Deus em sua omniciência, porque orar? Porque pedir a Ele que realize determinadas coisas? Não está tudo decidido?
3 - Porque lutar para conseguir algumas coisas? Se tudo está determinado, lutando ou não elas acontecerão!
4 - Se tudo está determinado por Deus devido à sua omniciência, então Ele é sim o criador do bem mas também do mal no mundo e alguém que cria o mal não pode ser totalmente bom - não é um Deus-amor!
5 - A mais radical - não dá para conciliar a existência de um Deus Amor, perfeito e omniciente em relação a um mundo cheio de injustiças como conhecemos. Logo, Deus não existe.

Talvez eu já tenha ouvido falar de outras conclusões precipitadas, mas acho que estas já mostram bem o tamanho do estrago que uma confusão de conceitos pode causar.

Vamos lá! Ter conhecimento de tudo que irá acontecer não é equivalente a determinar tudo que irá acontecer! Por exemplo, cremos que Deus criou o Homem livre para tomar suas próprias decisões. Saber qual decisão o Homem irá tomar não significa determinar essa decisão.

Deus vive na eternidade, na qual o tempo não tem sentido de ser contado. Simplesmente o tempo não existe para Deus - Tudo para ele é presente. Às vezes achamos que quando falamos de eternidade queremos dizer que o tempo continuaria passando mas nós não envelheceríamos mais nem desapareceríamos. Simplesmente o tempo continuaria passando e eu permaneceria vivendo nesse tempo. O conceito de eternidade é outro: é um tempo que não passa mais. Muitas vezes ouvimos a expressão "final dos tempos" e nem prestamos atenção nestas palavras. Realmente trata-se de FINAL dos TEMPOS. Na eternidade tudo é presente - sempre presente - não há tempo para passar.
Como Deus vive na eternidade, todos os tempos pelos quais estamos passando são, para Ele, presente. Assim, Ele sabe o passado, presente e futuro porque ele os "vive simultaneamente". Talvez me faltem termos adequados para definir melhor (afinal, só conhecemos o mundo temporal), mas é mais ou menos isso.

Logo, mais uma vez: saber aquilo que acontecerá não é sinônimo de determiná-lo. Portanto, as escolhas que eu faço ajudam a determinam sim o meu caminhar, interferem em consequências futuras. Embora Deus saiba as decisões que tomarei, eu é que as estou tomando - sou responsável por minhas escolhas. Se eu não lutar por uma vaga na universidade, ela não cairá no meu colo porque estaria determinada. Pelo contrário: ela estaria determinada a acontecer se eu lutei e tudo concorreu para que acontecesse. E estaria determinada a não acontecer se eu não lutasse por ela.

Com isso, não estou esvaziando a ação de Deus no mundo. Pelo contrário, estou apenas dizendo que temos total liberdade em nossos atos porque assim Deus quis. Entretanto, Deus também age no mundo mas sem interferir na nossa liberdade. Desde o início (e isso é narrado no Antigo Testamento) Deus vai se revelando gradativamente a seres humanos que vão "tateando" em meio às maravilhas da natureza e em meio a relações com outros seres humanos. Neste processo, Deus vai gradualmente mostrando sua vontade aos seres humanos até a revelação por excelência em Jesus (Deus e Homem, Deus encarnado como um de nõs) que nos revela o Pai como Ele é, sem possibilidade de erro, pois Jesus também é Deus e Ele, com o Pai no Espírito Santo, são um só Deus na Santíssima Trindade.

Esta revelação é ação de Deus na história e, portanto, Ele também atua em conjunto com as nossas ações; não no sentido de predeterminar o futuro, mas no sentido de convidar o Homem para a melhor forma de realizar este futuro. As ações de Deus no mundo, sob a forma de convites, de chamados, de vocações, da Revelação em si..., tudo isso visa um fim desejado por Deus: "Que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade" (cf. I Tm 2,3-4). Porém, a decisão do Homem é e será sempre livre. Podemos dizer que Deus "nos predestinou para sermos adotados como filhos seus por Jesus Cristo" (cf, Ef 1,5), mas não conforme o conceito corriqueiro de destino (algo escrito que não posso mudar). Essa "predestinação" é uma orientação, uma vontade de Deus acerca do nosso destino final e Deus sempre tentará conduzir-nos para este fim, mas nunca determinando-o - continuará sendo um convite!

Deus, portanto, não criou os males no mundo. Todo seu plano está orientado para o bem e para a salvação de todos os homens. Entretanto, a liberdade do homem implica em opções, as quais podem ser boas ou más. E isto, desde que surgiu o primeiro ser humano.

Por fim, falemos sobre a eficácia de orar. O caminho é o mesmo: Deus conhece tudo que acontece e que acontecerá, inclusive as orações que ainda faremos! Ele conhece tudo que ocorrerá, mas algumas coisas ocorrerão também influenciadas pelas orações que faremos (e que Ele já sabe que faremos).
Porém, aqui também precisamos conversar sobre o que é oração: Dentro deste contexto, não se trata de forçar a vontade de Deus a atender a nossa vontade. Pelo contrário, o movimento da oração já é uma resposta de nossa fé à um primeiro movimento de Deus - sua Revelação. Está sim nos planos de Deus que orássemos e estivéssemos cada vez mais em sintonia com Ele, mas Ele também não nos forçou a orar - Ele nos convidou! Então, a oração não é uma tentativa nossa de mudar a vontade de Deus, mas sim uma resposta nossa à vontade de Deus para que estivéssemos em Sua presença. E se nossa oração está conforme o plano de Deus, ela é atendida pois esta oração cumpriu seu papel primeiro - nos unir a Deus e à sua vontade.
Mas mesmo quando o objetivo de nossa oração não está direcionado de acordo com a vontade de Deus, se deixarmos Deus agir em nós, a oração trará um outro efeito: o de nos modificar. Unindo-nos com Deus na oração, Ele nos fará perceber gradativamente (as vezes após muitos percalços na vida) que devemos orar em outro objetivo que não aquele anterior. Mais uma vez, foi uma resposta nossa à vontade de Deus para que estivéssemos em sua presença.
Bom, já falei das respostas "Sim" e "Não" às nossas orações. Existe uma terceira possibilidade: "Ainda não". Aqui, a oração nos dá paciência e confiança de que Deus tudo conhece. Além disso, pode ser que Deus queira que façamos algo antes que o objetivo da oração seja atendido. Mais uma vez, acontece um convite de Deus para nossa ação conforme Sua vontade. Eis um outro efeito da oração - a comunicação de Deus conosco.

Portanto, mesmo sabendo que Deus sabe o que acontecerá, precisamos orar pois muitas destas graças estão vinculadas à nossa abertura de estar na presença de Deus.
Por fim, Deus sabe sim todas as coisas que acontecerão, mas essas coisas acontecerão também devido às nossas decisões e ações, as quais Deus já conhece também, mas não as pre-determina - são livres!

Sintamo-nos parceiros de Deus no plano de criação e redenção que Ele preparou para nós!!
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domingo, 31 de outubro de 2010

Misericórdia, Justiça, Amor e Onipotência Divina

Hoje, domingo 31/10/2010, participei da Missa pela manhã e a primeira leitura foi Sb 11,22-12,2. Senti vontade de comentá-la e voltar a escrever aqui no meu blog pois achei que o trecho é fantástico.
Segue o trecho:

Cap.11,

22. Diante de vós o mundo inteiro é como um nada, que faz pender a balança, ou como uma gota de orvalho, que desce de madrugada sobre a terra.
23. Tendes compaixão de todos, porque vós podeis tudo; e para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens.
24. Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto, se o odiásseis, não o teríeis feito de modo algum.
25. Como poderia subsistir qualquer coisa, se não o tivésseis querido, e conservar a existência, se por vós não tivesse sido chamada?
26. Mas poupais todos os seres, porque todos são vossos, ó Senhor, que amais a vida.

Cap.12,

1. Vosso espírito incorruptível está em todos.
2. É por isso que castigais com brandura aqueles que caem, e os advertis mostrando-lhes em que pecam, a fim de que rejeitem sua malícia e creiam em vós, Senhor.

Esta é a tradução da Bíblia Ave Maria. Na tradução da Bíblia do Peregrino, o versículo 22 não usa a palavra "nada" para comparar o mundo, mas sim "um grão de areia". Assim entendemos melhor, pois um "nada" realmente não poderia pender uma balança coisa que um grão de poeira pode fazer, se a balança for sensível. De qualquer forma, a idéia básica é que, comparado a Deus Todo-Poderoso e infinito, o mundo é de fato infinitamente pequeno. Porém ressalto que, mesmo assim, não é como um nada - ele tem valor. E os versículos seguintes mostram o quanto este mundo infinitamente pequeno é totalmente importante para Deus.

Somos pequenos, mas não desprezíveis! O mundo foi criado por Deus e, portanto, Ele ama tudo o que fez. Se Deus odiasse algo, não o teria criado (versículo 24). Como custamos a aceitar muitas vezes isso no nosso dia a dia.

Mas como encaixar aqui o pecado? Se Deus abomina o pecado, porque o teria criado? Aí está a questão que não está clara para muitas pessoas: Deus não criou o pecado. O pecado é fruto da liberdade do Homem (e também dos anjos, explicando também o caso de Lúcifer, mas foquemos no caso do Homem). O que Deus criou foi o Homem livre e nessa liberdade, ele opta pelo Bem Supremo ou pelo Mal.
Portanto, simplesmente exterminar o pecado "magicamente" ou agir de forma a não deixar que o pecado surgisse seria equivalente a tirar a liberdade do Homem. Liberdade e Amor andam inseparáveis. E como Deus é amor, não seria um ato de amor simplesmente cortar a liberdade. Quem ama, deixa livre. Quem ama quer que o amado lhe corresponda ao seu amor livremente, nunca obrigado ou oprimido. E, portanto, amar é deixar espaço para outras opções que não aquelas que se deseja.

Mas isso não significa que Ele simplesmente largou o Homem de mão. Pelo contrário, desde o início, Deus vai se revelando ao Homem gradativamente (vemos isso pela Palavra de Deus no Antigo testamento) e se revela de forma plena em Jesus - Deus conosco - o modelo do Homem chamado a existir desde o início. Jesus é o novo Adão também por isso: Remete à origem do Homem, ao plano original que Deus tem para cada ser humano.

Conforme o versículo 25, tudo que permanece existindo foi chamado por Deus a existir. Já falei várias vezes aqui no blog sobre chamado e vocação. Mas e se não realizamos o chamado? Se "destoamos" do plano original de Deus para o Homem? Aqui age o Deus misericordioso, que ama a criatura: Onipotência e justiça coexistem harmonicamente com misericórdia e amor em Deus. Aliás, a perfeição de cada uma destas 4 características leva a serem plenamente conciliáveis. Há os que não conseguem conceber que um Deus justo possa ser misericordioso, pois estaria relevando as faltas. Não é bem assim. A misericórdia leva em conta a nossa pobreza comparada à grandeza de Deus - somos infinitamente pequenos, lembra? Somos limitados, somos criaturas. Se não fôssemos limitados e falíveis, seríamos iguais a Deus. Até pela filosofia vemos ser incoerente um Deus criar outro Deus. Um deles não seria Deus.

Bom, deixando a filosofia de lado, Deus vem em socorro do nosso limite, permite que sejamos corrigidos durante nossa própria vida. Embora algumas traduções se refiram muitas vezes a este comportamento como castigo (Capítulo 12, versículo 2), seria mais adequado o termo correção ou advertência. E, se pensarmos que o próprio pecado tem consequências pelo ato intrínseco que foi cometido, não podemos dizer que Deus enviou um castigo. Entretanto, por estas consequências permitidas (não causadas) por Ele, podemos vislumbrar a atitude errada e, pela graça de Deus, nos corrigir.

Se pensarmos pelo viés do castigo, qual o castigo que mereceríamos pelo menor pecado que cometêssemos a alguém que é infinito amor? Infinito seria o castigo por questão de mérito. Mas pela misericórdia, Deus age enviando seu Filho encarnado na mesma realidade de nós humanos - Jesus, o Homem por excelência. Nele, esse "justo" castigo é anulado pra aqueles que aderirem a Ele. Somente nele temos a remissão dos pecados e, por misericórdia, por justiça, por onipotência e por amor, somos salvos.

E porque Deus age assim? A resposta está no versículo 26: "Mas poupais todos os seres, porque todos são vossos, ó Senhor, que amais a vida". Ele ama a vida que Ele mesmo criou. Não é vontade d'Ele a perdição dos vivos, mas sim que se convertam e vivam. Quem se perder, tenha certeza que é por vontade própria. O amor de Deus está disposto a salvar até o último suspiro desta vida.

Busquemos a salvação, a realização do chamado de Deus. No dia em que fui concebido no útero de minha mãe, Deus pronunciou meu nome e me chamou a existir. Imagino Deus chamando pelo meu nome: Faça-se o Antônio! E o Antônio foi feito. Pense agora em Deus chamando você à existência! Diga a mesma frase com o seu nome! E quando Ele nos chama, também já nos capacita para aquilo que Ele nos chama.

Eis aqui o segredo: Somos limitados, pois somos criaturas e não deuses. Mas, se participarmos da vida de Deus, se deixamos Seu Espírito agir em nós, apesar do nosso limite, agiremos como Deus quer. É um processo diário, contínuo - eu diria que é a vida, o processo de formação do "eu" que o Senhor queria desde sempre.

Que percebamos essa ação diária de Deus em nós. Deus nos abençoa a cada momento; mais que pedir sua bênção, peçamos a graça de percebê-la e entendê-la em nós para que cresçamos à imagem do Cristo.
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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Nossa Essência, Nossa Vocação

No último dia 11 de fevereiro comemoramos Nossa Senhora de Lourdes. É a mesma Santa Maria, mãe de Jesus e nossa mãe. A denominação se deve a uma aparição a Bernadette Soubirous em Lourdes (França) em fevereiro de 1858. A história é muito bonita e interessante, mas para o tema que gostaria de tratar, conto aqui apenas um trecho:

Quando Bernadette foi, a pedido da Bela Senhora que lhe aparecera, pedir ao padre responsável por Lourdes a construção de uma Igreja, este disse que não atendia a pedidos de estranhos e que Bernadette perguntasse à "aparição" qual o seu nome. Bernadette foi e, ao retornar, lhe disse que a Bela Senhora se identificou da seguinte forma: "Je suis l’Immaculée Conception" - Eu sou a Imaculada Conceição. Ora, este dogma havia sido definido pela Igreja durante o pontificado de Pio IX em 08/12/1854 (pouco mais de 3 anos antes - muito recente). Também, Bernadette era uma jovem camponesa que, quando perguntada, não soube nem dizer o que este "nome" significava. Este fato e milagres operados durante as aparições levaram a Igreja a estudar tudo o que cercou estes fatos e a aceitar estas aparições oficialmente.

Bom, antes de mais nada é válido esclarecer 2 pontos:

1 - Não cremos que os milagres foram realizados por Nossa Senhora, mas sim que Jesus os realizou por intercessão de Maria e para que servissem de sinais que pudessem auxiliar a atestar a veracidade das aparições.

2 - Ao declarar que Maria foi concebida sem pecado original (por isso Imaculada Concepção ou Conceição), isto não a coloca no centro das atenções, mas é uma declaração Cristocêntrica, ou seja, a Igreja declara que isto aconteceu "em previsão dos méritos de Cristo" e por que ela foi escolhida nos eternos desígnios de Deus para a missão de ser a mãe do Deus Filho feito Homem para a nossa Redenção. Portanto, tudo isso é graça de Deus.

Esclarecidos estes pontos, entro no assunto objeto desta postagem: Nossa essência, nossa vocação.
É um tema ligado diretamente a outro que já escrevi ("Sou Chamado pelo Nome") mas achei a oportunidade ótima para voltar ao tema.

Quando Bernadette pergunta à Bela Senhora o seu Nome, poderíamos pensar que a resposta imediata seria "Maria". Em vez disso, ela respondeu com algo que define sua essência, sua missão: Imaculada Conceição. É interessante que a Bíblia é recheada de momentos onde o nome também é muito mais do que uma forma de chamar alguém. Ele definia a essência, a missão. Vejamos:

- No momento da sarça ardente, quando Deus se manifesta a Moisés, este lhe pergunta qual é o Seu nome. Resposta: "Eu sou aquele que sou" (Que corresponde ao tetragrama sagrado YHWH, traduzido como Javé) - Ex 3,13-15. Deus é Aquele que é. Enquanto todas as criaturas são (ou existem) porque Deus lhes concedeu a existência, ou seja, não existem desde a eternidade por si mesmos, Deus é desde sempre e O será para sempre. Só Ele é, sem dever seu ser a nada ou ninguém mais.

- Jesus, o nome revelado pelo anjo a José (Mt 1,20-21) e a Maria (Lc 1,31) para o filho de Deus significa "O Senhor Salva" (já vi traduzido como Javé Salva). O anjo mesmo explica a José que a razão do nome é que "ele salvará o seu povo de seus pecados." Seu nome, sua missão e sua essência são uma só coisa.

Muito mal comparando, o ser humano também faz o mesmo quando dá nome a algumas coisas:

- Bicicleta - dois "ciclos", ou duas rodas.
- Automóvel - se movimenta (móvel) por si só. A fonte de energia que o faz andar está nele mesmo, não tira energia de outro lugar (auto).
- Amplificador - Amplifica, aumenta por exemplo o som captado por um microfone, jogando-o numa caixa de som.

Bom, não quer dizer que o nome que recebemos no nosso Batismo já quer dizer nossa missão, ou nossa vocação. Mas quero dizer que, no momento em que Deus sonhou conosco e nos criou, tinha para cada um em especial uma razão de ser, uma vocação, um lugar no Seu plano de amor e salvação. E este lugar particular é de cada um, como em cada "faça-se" da passagem sobre a criação...

E qual é este "lugar particular"? Ora, pergunte para Ele. Ore, peça a Deus que oriente seus pensamentos, perceba em si os dons que Ele lhe deu. Aproxime-se mais de Deus por sua Palavra, por sua Igreja. E digo mais: muitas vezes quem acaba nos revelando o nosso "lugar particular" é a própria comunidade. Afinal, o nosso lugar na comunidade é uma parcela deste "lugar particular". Estar no "nosso lugar", realizar nossa essência e nossa vocação é a realização máxima do ser humano. Eis a felicidade do ser humano que, é claro, só será plena na vida eterna pois lá poderemos realizar o chamado fundamental - o amor - também de forma plena em Deus que é a plenitude do Amor:

"Fizeste-nos para ti, e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em ti. (Santo Agostinho em Confissões I,1)

"Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é. (I Jo 3,2)

Mas enquanto caminhamos aqui na Terra, já busquemos realizar nossa felicidade conforme os planos de Deus, em Seu amor. Saiba que não existe louvor maior a Deus do que executar seus desígnios e sermos verdadeiramente felizes!

Um abraço e que cada um encontre seu chamado, o sonho de Deus para cada um!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Este Natal não será o mesmo!

Escrevi esta mensagem e enviei para várias pessoas por e-mail. Por se tratar de uma reflexão válida para todos e em todos os tempos, decidi postá-la aqui também.

Caros amigos e irmãos, chegamos mais uma vez ao Natal e, às vezes, somos tentados a dizer:
“Ah, é todo ano a mesma coisa. Nos reunimos, festejamos o final de mais um ano, entregamos e recebemos presentes, desejamos o já padronizado ‘Feliz Natal e Próspero Ano Novo’ pessoalmente ou em cartões já pré-escritos, em que acrescentamos o também famoso ‘São os votos de...’. A única coisa que mudou um pouco é que estes cartões estão cada vez mais informatizados e usando menos o papel... E, depois das festas, volta tudo a ser como antes, as mesmas discussões, as mesmas simpatias e antipatias, os mesmos comportamentos...”

Bom, é uma forma de pensar, mas não precisa ser assim. Porquê? Porque simplesmente a decisão se será a mesma coisa é única e exclusivamente de cada um! A decisão se o nosso dia será bom ou será uma ... coisa muito ruim está em nós mesmos, em como encaramos a vida, em como decidimos agir.

Bom, em uma mensagem de Natal não posso me omitir em falar d’Aquele que é a razão de ser do Natal: Jesus Cristo (e não Papai Noel...).
Gostaria de citar uma passagem sobre João Batista, sobre o que ele respondia aos que lhe perguntavam o que fazer para esperar a vinda de Cristo: Lc 3,10-14

“Perguntava-lhe a multidão: Que devemos fazer? Ele respondia: Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo. Também publicanos vieram para ser batizados, e perguntaram-lhe: Mestre, que devemos fazer? Ele lhes respondeu: Não exijais mais do que vos foi ordenado. Do mesmo modo, os soldados lhe perguntavam: E nós, que devemos fazer? Respondeu-lhes: Não pratiqueis violência nem defraudeis a ninguém, e contentai-vos com o vosso soldo.”

Basicamente, o resumo desta passagem é:
O que é necessário fazer para que vivamos como pessoas que têm Jesus como modelo? Gestos Heróicos? Ir para o deserto viver em meditação? Ora, o que é necessário é viver bem aquilo que é nossa vida hoje, este presente maravilhoso de Deus para que cada um de nós vivesse! Aos que se sentem chamados a missões levadas ao extremo do heroísmo ou à vida contemplativa, nada contra, mas é um chamado particular – a vocação de vida deles. Mas hoje, no contexto em que nos encontrarmos (trabalho, estudos, família, amizades, relações sociais, religiosidades) precisamos viver de forma justa e ponderada pelo amor. Esta é a “vida em abundância” de que Jesus falava – item fundamental da qualidade de vida tão falada atualmente. Isto é viver bem!

É interessante que nas recomendações de João Batista, ele não fala de mudanças grandes quanto à profissão ou à vida diária, mas sim de mudanças radicais de procedimento de vida. Não são grandes quando às mudanças em si, mas são impactantes quanto aos efeitos.

Assim viveu Jesus, dentro de seu chamado, de sua missão – equilibradamente. Tão equilibrado e tão certo de suas convicções que, por seu jeito diferente de encarar a vida, mudou a vida de muitos e gerou insatisfação dos que não queriam mudança. É aí que sua missão o levou ao extremo de dar sua vida. E as mudanças no mundo foram tão grandes que a história foi dividida por seu nascimento em duas partes distintas: Antes e Depois de Cristo!

Se chegamos a este tempo com esta vontade de mudança pessoal, garanto: Este será sim um Natal diferente! Diriam “Ah, eu mudo mas e os outros? Não adianta muito!” Ora, se você muda, sua vida já muda – já será melhor! Se alguns mudam, o efeito será maior ainda. Sem contar que nossa mudança pode incentivar outros a mudarem.

Bom, dentro de tudo isto, quero desejar um Natal em que a lembrança do pequeno menino Jesus possa inspirar-nos um recomeço, o início de uma nova etapa em nossas vidas, pedindo a Deus que Ele nos dê força e sabedoria para saber trilhar, da melhor maneira possível, esta vida que nos foi dada de presente. Não existe um caminho pré-fabricado para cada um. O caminho se faz caminhando e, se é assim, vamos construir um belo caminho! Desta forma, são será apenas uma lembrança: Jesus realmente nascerá neste Natal em nós!

E, neste clima de mudanças, de recomeço, desejo também um excelente Ano Novo – o início de uma nova etapa de nossas vidas!
Grande abraço e que Deus todo-poderoso abençoe a todos!!

sábado, 12 de dezembro de 2009

Porque ANJO BARRO?


Bom, poucas vezes eu usei este nome na minha vida, ou melhor, esta sigla. Como já está no início do meu blog, são as sílabas iniciais de meu nome: ANtônio JOBARbosa ROdrigues.


Entretanto, justamente quando eu estava pensando em um nome original para meu blog e me veio em mente este nome, passou também pela minha cabeça um novo sentido ANJO, mas BARRO...

Sim, a palavra ANJO significa mensageiro, portador de uma mensagem. E, como já escrevi nos temas sobre CHAMADO (Sou chamado pelo nome? [clique para ler]), na palavra criadora pronunciada por Deus está também a nossa VOCAÇÃO. E essa vocação me faz participante da missão de construção de um mundo melhor. Sou portador de uma mensagem de Deus para o mundo; você também é portador(a) de uma mensagem de Deus para o mundo, mensagem esta que ninguém mais pode dar no meu ou no seu lugar, porque cada um de nós é único e irrepetível.

Recentemente, ouvi uma pregação do Pe. Fábio de Melo com o título "Portador de Deus" e ele mencionava que este era o título de Santo Inácio de Antioquia. Penso que ser portador da mensagem de Deus é ser portador do próprio Deus. Por isso, acho que cada um de nós é chamado a ser anjo neste sentido (não na questão das naturezas, que são distintas). Somos mensageiros de uma boa nova, da boa mensagem - do grego "EU ANGELION" = Evangelho.

Só que esta mensagem de Deus é portada por nós, simples criaturas as quais aprouve a Deus querer Sua imagem e semelhança. Cito aqui a passagem da Segunda carta de S. Paulo aos Coríntios (II Cor 4,6-7):

"Porque Deus que disse: Das trevas brilhe a luz, é também aquele que fez brilhar a sua luz em nossos corações, para que irradiássemos o conhecimento do esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo. Porém, temos este tesouro em VASOS DE BARRO, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós."

Portanto, este tesouro que é esta mensagem de Deus - este chamado, esta vocação - é levada por vasos frágeis de barro que somos nós.

Este segundo motivo me fez decidir pelo nome do blog, para que eu nunca me esqueça de que sou um mensageiro da Palavra pronunciada por Deus, mas que esta mensagem não tem origem em mim, pois sou frágil, sou barro - é o sopro de Deus que me faz vivo (Gn 2,7), que me faz mensageiro, que me faz ANJO BARRO.

sábado, 28 de novembro de 2009

Me conhecer em comunidade?

Para nos conhecermos melhor, temos como meio a oração, conforme já escrevi no Tema "Mas como assim vocação?" (clique aqui para ler).

Mas existe também um meio muito importante: a vida em comunidade. É quando nos deparamos com as diferenças em relação a nossos irmãos que tomamos consciência de quem somos. Não se trata, numa primeira análise, em definir certo ou errado. Trata-se de melhor conhecer quem somos na medida em que identificamos aquilo que não somos nas atitudes do outro.

E não só isso! Eu tenho reações, dependendo do que meu irmão faz. Conforme já falei no tópico "NINGUÉM CAUSA EMOÇÕES NO OUTRO..." (clique aqui para ver), os sentimentos que brotam em mim quando reajo a alguma ação de alguém não é colocado em mim por ele. Na realidade, as razões deste sentimento já estavam em meu coração - só foram despertados pelo outro. E ao serem despertados, posso conhecê-los.

Meus irmãos da Comunidade Filhos da Redenção (a qual pertenço) tem me ajudado muito a me conhecer, mesmo porque são muito diferentes de mim. Melhores? Não!! - Piores? Não!! - São diferentes e, por isso, me fazem crescer.

É importante perceber que podemos estar sendo (perdoem este "gerundismo", mas achei que expressa bem o que eu quero dizer) não o que Deus nos vocacionou, mas sim outras coisas que fomos acumulando por cima do chamado inicial. Para poder discernir isso, em primeiro lugar preciso ver quem estou sendo (perdoem de novo) e quem eu sou, por baixo de tudo que foi se acumulando.

Como eu disse, o fato de percebemos quem somos agora e que somos diferentes uns dos outros ainda não define se este ou aquele está certo ou errado. Isto só percebemos quando vamos ao outro meio: o meio da Oração. É aqui que, quando conversamos francamente com Deus, vamos:

  • desenterrando, trazendo à tona o que é chamado de Deus
  • mantendo aquilo que acumulamos em nosso crescimento pessoal e que colabora com o chamado
  • lutando para retirar aquilo que não colabora, que não edifica.
Deus e a Comunidade: Com eles eu me conheço e posso realizar minha vocação, posso ser feliz, posso já antecipar em parte o céu aqui na terra. E isto só é possível no amor. Não é a toa que temos esta afirmação de Nosso Senhor Jesus Cristo em Mc 12, 29-31:

"Jesus respondeu-lhe: 'O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis aqui o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que estes não existe.'"

Portanto, a fundamental vocação (de onde derivam as demais) é o amor, conforme a Encíclica Familiaris Consortio 11: "Deus é amor (I Jo 4,8.16) e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem... (Gn 1,26-27), Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão.”

Mas como assim vocação?

Ora, sei que existe uma vocação de Deus para mim. Já falei sobre isso no Tema "Sou chamado pelo nome???" (clique aqui para ler)

Mas como assim vocação?

Não digo apenas quanto à vocação Sacerdotal, Religiosa ou Matrimonial (mas também as incluo). Quero englobar a vida como um todo. Temos também uma vocação profissional que é fruto não só do chamado de Deus, mas também da herança genética de nossos pais, responsável por nos dotar de aptidões. É claro que até nessa herança genética temos a mão de Deus (ou a voz de Deus no "faça-se" - neste caso no "façamos" de Gn 1,26).

Temos "hobbies", temos gostos particulares, temos um temperamento bem pessoal, temos tanta coisa que nos faz sermos especiais, únicos, irrepetíveis. E é tudo isso que, por ser fruto da vocação - do chamado a existirmos, nos serve de "pista" para descobrirmos a nossa vocação.

Precisamos nos conhecer. Precisamos ter a coragem para olharmos para dentro de nós mesmos e procurarmos quem nós somos. E isto, certamente, precisa da ajuda de Deus - Aquele que sabe "tim-tim por tim-tim" quem somos. E, na oração, na intimidade com Deus é que conseguimos nos conhecer melhor. Não só Ele se revela a nós, mas também nos revela a nós mesmos, principalmente ao expormos a nossa vida à Ele.

Muitas vezes me questionei porque precisava falar de minha vida para Deus em minhas orações, já que Ele conhece tudo. Mas é em cima dessa "matéria-prima" que apresento a Deus que Ele me faz enxergar aquilo que sozinho eu não poderia ver ou fazer.

É só lembrar Mc 10,51-52: "Jesus, tomando a palavra, perguntou-lhe: 'Que queres que te faça?'" Uma pergunta meio óbvia a um cego, não?? E a resposta não foi diferente da esperada: "Rabôni, respondeu-lhe o cego, que eu veja!" Mas era preciso o cego afirmar claramente o que queria, dizer o que precisava. Só em cima disso, concretamente, Jesus pôde dizer "Vai, a tua fé te salvou."

Bom, e se Jesus chegasse hoje para você e perguntasse "Que queres que te faça?" Você teria algo na ponta da língua para dizer? Você apresentaria uma necessidade real ou um desfile de vontades que apenas "encobrem" cada vez mais a sua vocação?

Essa vocação nos faz encontrar o nosso lugar nessa engrenagem que é o projeto do Reino de Deus, no plano de Salvação que Deus quer fazer acontecer para que cada um realize sua vocação e seja feliz.

Mas esse conhecimento de nós mesmos não acontece somente na oração. Acontece também na vida em comunidade.

Continua em "Me conhecer em comunidade?" (clique aqui para ler)

Sou chamado pelo nome???

Pois é. Título meio louco pra texto de blog...

Quero me deter um pouco em 3 passagens:

(Is 43,1) "E agora, eis o que diz o Senhor, aquele que te criou, Jacó, e te formou, Israel: Nada temas, pois eu te resgato, eu te chamo pelo nome, és meu."

(Jr 1,5) "Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia; antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado, e te havia designado profeta das nações."

(Gn 1,3-5) "Deus disse: 'Faça-se a luz!' E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz DIA, e às trevas NOITE. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia."

Aquele que me criou me chama pelo nome, nome que Ele já conhecia antes que no seio de minha mãe eu fosse formado. Gosto de fazer um paralelo entre essa idéia e a narrativa da Criação, onde sabiamente o escritor bíblico, inspirado pelo próprio Deus, O coloca criando através da Sua Palavra, através dos diversos "faça-se" e do especial "façamos" ao criar o ser humano.

No "faça-se", Deus "pronuncia um nome", a verdadeira essência daquilo que será feito, criado. Quando, por exemplo, Ele faz a luz, já diz também o que ela será e fará. No fundo, a essência da Palavra de Deus já é a própria ação criadora de Deus.

Assim, ao criar cada um de nós, Ele pronunciou um nome - mais que um nome, um chamado! Ele nos chamou à existência. A palavra vocação vem do latim vocare = chamado. Assim, o que inicia nossa existência é um chamado de Deus, uma vocação.

Fomos criados para a realização de um projeto maravilhoso de Deus em nossa vida. E o meu Deus, o Deus revelado em Jesus Cristo, o Deus em que eu acredito é um Deus que é Amor. Portanto, a vocação de Deus para mim é certamente uma linda vocação que, ao ser realizada, me fará feliz - me fará viver o céu! E isto não é privilégio meu. Você que está lendo estas linhas também tem uma maravilhosa vocação de Deus. Queira descobri-la, procure achá-la. É por aí que encontrará a sua felicidade.

domingo, 22 de novembro de 2009

Nada é nosso – tudo é dom de Deus

Tudo que recebemos de Deus é por graça, de graça. É por puro amor.

Poderíamos argumentar, então, que uma vez que Deus nos tenha dado, passa a nos pertencer e, portanto, não sou obrigado a partilhar ou dividir o que tenho, pois passou a ser meu.

Realmente, obrigado não sou... Só que, aprofundando um pouco mais, Deus criou todas as coisas (inclusive nós). Se ele criou o nosso ser, o nosso existir também foi dom de Deus. Mas dom de quem para quem, já que não existíamos para poder receber nossa existência? (filosofando... rsrsrs)

No fundo, a criação inteira foi feita para a harmonia, para a completa partilha e dependência mútua. Portanto, o fato de sermos e existirmos já é também um dom de Deus, somos dom para o mundo, para a criação que nos inclui também! Nossa essência é sermos dom e, portanto, também colaborar com nossos dons para que o mundo seja melhor.

Quando se fala de dom, é inevitável falar de amor, pois o dom de Deus foi sem pedir nada em troca – dom totalmente gratuito. Já disse João que Deus é Amor. É a isso que somos chamados. O desamor e o egoísmo é ir contra o crescimento do ser humano, é descer em nosso desenvolvimento. É não ser aquilo para o qual fomos feitos, ir contra nossa essência. É errar o alvo, é ser incoerente com o que somos. É, em última análise, “não ser”.

Percebo a vida eterna como a realização do nosso ser “sendo”, ou seja, existindo, vivendo, realizando o que nos foi doado como potencial! Já o “não ser”, mesmo existindo, seria o contrário – não realizar o projeto, não completar em nós o que, em potencial, nos foi dado.

Embora o mundo pareça afirmar o contrário, o amor é a realização plena do ser humano, é a sua fortaleza.